
Sertralina e escitalopram são, hoje, dois dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) mais prescritos no mundo. Ambos aparecem lado a lado no topo da influente meta-análise de Cipriani e colaboradores (2018, publicada na revista Lancet), que comparou 21 antidepressivos e identificou os dois como opções com melhor equilíbrio entre eficácia e tolerância entre adultos com depressão maior.
Apesar dessa semelhança na eficácia global, a escolha entre os dois raramente é óbvia na prática clínica. Ela depende do perfil do paciente, das comorbidades presentes, das interações medicamentosas relevantes e até de situações específicas como gestação e amamentação. Este comparativo organiza os critérios práticos usados em consultório psiquiátrico para ajudar a entender por que um medicamento pode ser preferido em relação ao outro em diferentes cenários.
Comparativo direto entre os dois medicamentos
- Faixa de dose: 25 a 200 mg por dia
- Meia-vida: aproximadamente 26 horas
- Perfil mais ativador (tende a energizar)
- Boa evidência para pânico, TOC e TEPT
- Recomenda-se tomar com alimento
- Faixa de dose: 5 a 20 mg por dia
- Meia-vida: aproximadamente 30 horas
- Perfil mais sedativo e ansiolítico
- Excelente para TAG e depressão em geral
- Pode ser tomado independentemente de alimentação
Eficácia comparada
Em depressão maior, os dois medicamentos apresentam eficácia muito semelhante em estudos comparativos diretos. O escitalopram leva uma ligeira vantagem em transtorno de ansiedade generalizada e em pacientes idosos, principalmente pela boa tolerância cardiovascular observada em doses de até 10 mg por dia.
Já a sertralina tem vantagem relativa em TOC, TEPT e síndrome do pânico, além de ser frequentemente a primeira escolha em pacientes pós-infarto agudo do miocárdio, graças a dados robustos de segurança cardiovascular acumulados ao longo de décadas de uso.
Perfil de efeitos colaterais
- Diarreia e náusea
- Insônia
- Sudorese aumentada
- Bocejos frequentes
- Sonolência
- Boca seca
- Disfunção sexual
- Risco de prolongamento do intervalo QT em doses altas
Qual escolher conforme o perfil do paciente
- Paciente apático ou com sonolência excessiva de base: sertralina, por seu efeito mais ativador
- Paciente agitado ou com insônia importante: escitalopram tende a ser mais bem tolerado
- Idoso com cardiopatia: sertralina é considerada mais segura no contexto pós-infarto
- TOC ou TEPT: sertralina tem evidência mais robusta e específica
- Ansiedade generalizada pura, sem outros transtornos associados: escitalopram costuma ser preferido
- Gestante: sertralina é a opção com maior volume de dados de segurança acumulados
Interações medicamentosas relevantes
A sertralina é um inibidor moderado da enzima CYP2D6, o que pode potencializar os níveis de medicamentos como tamoxifeno, metoprolol e codeína. O escitalopram, por sua vez, tem um perfil de interação farmacológica bem menor — uma vantagem importante em pacientes que já fazem uso de vários medicamentos simultaneamente (polifarmácia).
Ambos exigem cautela especial com tramadol, triptanos e anticoagulantes. O escitalopram, adicionalmente, costuma exigir a realização de eletrocardiograma em pacientes idosos, devido ao risco de prolongamento do intervalo QT em doses mais elevadas.
Como fazer a troca entre um e outro
A troca direta — suspender um no dia anterior e iniciar o outro em dose equivalente no dia seguinte — costuma ser segura e é uma prática comum na psiquiatria. Como equivalência aproximada, considera-se que 50 mg de sertralina correspondem a cerca de 10 mg de escitalopram, e 100 mg de sertralina a algo entre 15 e 20 mg de escitalopram.
Em pacientes mais sensíveis a mudanças bruscas, uma alternativa é o cross-titration: reduzir gradualmente a dose de um medicamento enquanto se introduz o outro ao longo de 1 a 2 semanas, minimizando o risco de sintomas de descontinuação ou de queda temporária na resposta terapêutica.
Atenção ao decidir
Custo e disponibilidade no Brasil
Ambos os medicamentos possuem versões genéricas amplamente disponíveis nas farmácias brasileiras, com preços relativamente próximos entre si. A sertralina, por estar disponível há mais tempo no mercado nacional, costuma ter uma variedade ainda maior de apresentações genéricas, o que pode facilitar o acesso em algumas regiões.
Conclusão
Sertralina e escitalopram figuram entre as melhores escolhas atuais para o tratamento de depressão e transtornos de ansiedade. A sertralina se destaca especialmente em TOC, TEPT, síndrome do pânico, gestação e em pacientes com cardiopatia estabelecida. O escitalopram, por sua vez, costuma brilhar em transtorno de ansiedade generalizada, em idosos mais sensíveis a efeitos colaterais e em pacientes que não toleram bem os efeitos digestivos mais comuns da sertralina.
Guia completo: Sertralina
Hub completo da sertralina: dose inicial e ajuste, tempo de resposta, efeitos colaterais, álcool, gravidez e desmame.
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Perguntas frequentes
+Qual dos dois engorda mais?
Ambos têm perfil semelhante e relativamente leve quanto ao ganho de peso. Há uma pequena vantagem observada para o escitalopram.
+Qual causa menos disfunção sexual?
Ambos causam disfunção sexual de forma semelhante. Bupropiona ou vortioxetina costumam ser alternativas melhores nesse quesito.
+Posso trocar de um para outro sem fazer desmame?
Sim, a troca direta com dose equivalente costuma ser segura na maioria dos casos.
+Qual é melhor para ansiedade?
Escitalopram tende a ser preferido em TAG; sertralina se destaca em pânico e TOC.
+Qual é mais usado em adolescentes?
Sertralina e fluoxetina são os que possuem aprovação mais ampla para essa faixa etária.
+Qual age mais rápido?
O tempo de resposta clínica é semelhante entre os dois: de 4 a 8 semanas na maioria dos casos.
+Posso tomar os dois medicamentos juntos?
Não. A associação aumenta significativamente o risco de síndrome serotoninérgica.
+O custo é muito diferente entre eles?
Os genéricos de ambos têm preço bastante similar no mercado brasileiro.
+Qual é melhor para depressão pós-parto?
A sertralina é a mais estudada e geralmente preferida durante a amamentação.
+Algum dos dois prejudica a memória?
Um leve embotamento cognitivo pode ocorrer com ambos, mas costuma ser reversível.
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- → Sertralina: quanto tempo demora para fazer efeito, semana a semana
- • Anvisa — Bulário Eletrônico (bula profissional da sertralina).
- • UpToDate — Drug Information Monographs (Sertraline).
- • Cipriani A. et al. — Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs (Lancet, 2018).
- • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) — Diretrizes de tratamento da depressão e transtornos de ansiedade.
- • Cochrane Library — revisões sistemáticas sobre ISRS, descontinuação e disfunção sexual.
- • Organização Mundial da Saúde (OMS) — mhGAP Intervention Guide.