
Resposta direta: não existe um analgésico universalmente 'melhor'. A dipirona é a mais potente para febre e dor intensa, o paracetamol é o mais seguro para gestantes e crianças pequenas, e o ibuprofeno é a melhor escolha quando há inflamação envolvida. A escolha certa depende do tipo de dor, da idade, da gravidez e de condições como asma, úlcera ou problemas no fígado.
Dipirona, paracetamol e ibuprofeno são os três analgésicos mais consumidos no Brasil e respondem pela grande maioria das automedicações no país. Embora todos aliviem dor e febre, pertencem a classes farmacológicas diferentes, têm mecanismos de ação distintos e perfis de efeitos colaterais completamente diferentes — o que muda radicalicamente quando um é preferível ao outro.
Este comparativo reúne em um só lugar tudo o que você precisa saber para escolher com segurança: mecanismo de ação, indicações específicas, doses em adultos e crianças, contraindicações absolutas, interações medicamentosas, segurança na gravidez e na amamentação, tempo de ação e custo. É o tipo de referência que pode ser consultada (e citada) sempre que surgir a dúvida sobre qual analgésico tomar.
Resumo rápido — qual escolher quando
- 1ª escolha: Dipirona (mais potente para baixar febre)
- Alternativa segura: Paracetamol (especialmente em criança <6 meses)
- Evitar: Ibuprofeno se desidratado ou com risco renal
- 1ª escolha: Dipirona (rápida e potente)
- Alternativa: Ibuprofeno (efeito anti-inflamatório ajuda tensão)
- Paracetamol: mais fraco, preferir em gestante
- 1ª escolha: Ibuprofeno (anti-inflamatório)
- Alternativa: Dipirona + Ibuprofeno (combinação comum)
- Paracetamol: pouco efeito anti-inflamatório
- Seguro: Paracetamol (qualquer trimestre, dose curta)
- Evitar: Ibuprofeno (especialmente 3º trimestre)
- Evitar: Dipirona (especialmente 1º trimestre)
- 1ª escolha: Paracetamol (seguro desde 2 meses)
- Dipirona: só >3 meses e com orientação
- Ibuprofeno: só >6 meses
- Preferir: Dipirona ou Ibuprofeno
- Evitar: Paracetamol (hepatotoxicidade em doses altas)
- Preferir: Paracetamol (segurança renal)
- Usar com cautela: Dipirona
- Evitar: Ibuprofeno (risco de lesão renal)
- 1ª escolha: Paracetamol (não irrita estômago)
- Alternativa: Dipirona (pode irritar menos que AINE)
- Evitar: Ibuprofeno (risco de sangramento)
Como cada um age no corpo (mecanismo de ação)
Os três medicamentos aliviam dor e febre, mas por caminhos farmacológicos diferentes — e isso explica por que um funciona melhor que o outro em cada situação.
A dipirona (dipirona sódica, também chamada de metamizol) pertence ao grupo das pirazolonas. Ela inibe as enzimas cicloxigenase (COX) no sistema nervoso central, reduzindo a produção de prostaglandinas que causam dor e febre. Tem também um efeito central sobre a regulação térmica do corpo, o que a torna particularmente eficaz para febre. Seu início de ação é rápido — 15 a 30 minutos via oral — e a dipirona injetável é um dos poucos analgésicos potentes disponíveis no Brasil para uso hospitalar.
O paracetamol (acetaminofeno) age quase exclusivamente no sistema nervoso central, inibindo a COX-3 (uma isoforma central) e modulando vias da dor no cérebro. É importante: o paracetamol praticamente não tem efeito anti-inflamatório periférico — ele baixa a febre e alivia a dor, mas não reduz a inflamação nos tecidos. Por agir centralmente e não irritar a mucosa gástrica, é o analgésico mais seguro para estômago, gravidez e crianças pequenas, mas também o menos potente dos três para dores de intensidade moderada a forte.
O ibuprofeno é um anti-inflamatório não esteroide (AINE) da classe dos derivados do ácido propiônico. Inibe as COX-1 e COX-2 tanto no sistema nervoso central quanto na periferia, reduzindo prostaglandinas que causam dor, febre e inflamação. É a única opção dos três que tem efeito anti-inflamatório significativo — por isso é a primeira escolha quando a dor tem componente inflamatório (dor de dente com inchaço, garganta inflamada, lesão muscular, artrite). O custo dessa potência periférica é um maior risco gástrico e renal.
Tabela comparativa completa
Comparação detalhada ponto a ponto
- Dipirona: alta (a mais potente dos três para dor aguda)
- Ibuprofeno: moderada a alta (600mg ≈ dipirona 1g em dores inflamatórias)
- Paracetamol: moderada (eficaz em dores leves a moderadas)
- Dipirona: excelente (a mais eficaz para febre alta)
- Ibuprofeno: bom (efeito em 30–60 min)
- Paracetamol: bom e consistente, mas menos potente que dipirona
- Ibuprofeno: SIM (significativo, principal diferencial)
- Dipirona: leve (não é anti-inflamatório de primeira linha)
- Paracetamol: praticamente NENHUM
- Dipirona: 15–30 minutos
- Paracetamol: 30–60 minutos
- Ibuprofeno: 30–60 minutos
- Ibuprofeno: 4–6 horas
- Dipirona: 4–6 horas
- Paracetamol: 4–6 horas
- Paracetamol: mínima (seguro para estômago)
- Dipirona: baixa a moderada
- Ibuprofeno: moderada a alta (risco de úlcera/sangramento)
- Paracetamol: muito baixo
- Dipirona: baixo (cautela em idosos)
- Ibuprofeno: moderado (evitar em desidratação e doença renal)
- Ibuprofeno: baixo
- Dipirona: baixo
- Paracetamol: moderado a alto em doses altas ou com álcool
- Paracetamol: SEGURO (qualquer trimestre, curto prazo)
- Dipirona: evitar 1º trimestre e próximo ao parto
- Ibuprofeno: evitar, especialmente 3º trimestre
- Paracetamol: seguro
- Ibuprofeno: seguro (preferido entre AINEs)
- Dipirona: aceitável em dose única, evitar uso prolongado
- Paracetamol: 2 meses
- Dipirona: 3 meses (com orientação)
- Ibuprofeno: 6 meses
- Dipirona 500mg: mais barato do trio
- Paracetamol 750mg: barato
- Ibuprofeno 400/600mg: mais caro
Dipirona: quando brilha e quando evitar
A dipirona é o analgésico-antitérmico de escolha quando se precisa de potência e rapidez: febre alta que não cede com paracetamol, cólica renal, dor pós-operatória, enxaqueca intensa e dor oncológica (a dipirona injetável é padrão em hospitais brasileiros). É também o único dos três com formulação injetável amplamente disponível no país.
Os pontos de atenção da dipirona são três: a sonolência e a queda de pressão (especialmente em idosos e na formulação injetável), o risco raro mas grave de agranulocitose (uma queda abrupta dos glóbulos brancos que ocorre em aproximadamente 1 caso por milhão de usuários) e a proibição em vários países — a dipirona foi retirada do mercado nos EUA, Reino Unido e parte da Europa na década de 1970 por esse risco, embora estudos posteriores tenham sugerido que o risco real é bem menor do que se temeu inicialmente.
Paracetamol: o seguro universal (com um limite)
O paracetamol é o analgésico de maior segurança: não irrita o estômago, é o preferido na gravidez e na amamentação, é seguro para crianças a partir de 2 meses e não compromete os rins. Por isso é a primeira opção em dor leve a moderada e febre quando não há contraindicação específica.
O grande risco do paracetamol é a hepatotoxicidade. Doses acima de 4 g por dia em adultos (ou 75 mg/kg em crianças) podem causar lesão hepática grave e até fatal — especialmente em quem consome álcool, tem doença hepática prévia ou está em jejum prolongado. Como o paracetamol está presente em dezenas de associações medicamentosas (gripe, resfriado, xaropes), a causa mais comum de intoxicação é tomar vários produtos sem perceber a duplicidade.
Ibuprofeno: a potência anti-inflamatória (com custo gástrico)
O ibuprofeno é a escolha quando a dor vem acompanhada de inflamação: dor de dente com inchaço, amigdalite, tendinite, entorse, dor articular, cólica menstrual intensa e dor pós-trauma. Seu efeito anti-inflamatório o diferencia da dipirona e do paracetamol, que praticamente não reduzem a inflamação nos tecidos.
Em contrapartida, o ibuprofeno é o mais arriscado dos três para o estômago e os rins. Inibe a COX-1, que protege a mucosa gástrica, aumentando o risco de gastrite, úlcera e sangramento digestivo — especialmente em idosos, em uso prolongado e associado a álcool ou anticoagulantes. Nos rins, pode reduzir o fluxo sanguíneo renal em situações de desidratação, insuficiência renal ou uso conjunto com IECA/bloqueadores de receptor de angiotensina.
Dose em adultos
- Dose: 1 a 2 comprimidos
- Intervalo: 6 em 6 horas
- Máximo/dia: 8 comprimidos (4 g)
- Tomar com água, pode ser com ou sem alimentos
- Adulto: 20 a 40 gotas
- Intervalo: 6 em 6 horas
- Mais rápida absorção que comprimido
- Dose: 1 comprimido
- Intervalo: 4 a 6 horas
- Máximo/dia: 8 comprimidos (6 g, ou 4 g se hepatopata/idoso)
- Dose: 1 comprimido
- Intervalo: 6 a 8 horas
- Máximo/dia: 1.200 mg (OTC) ou 2.400 mg (prescrição)
- Tomar SEMPRE com alimentos ou leite
Dose em crianças (por peso)
Em crianças, a dose é calculada por peso, não por idade — a idade é apenas um guia. Use sempre a apresentação pediátrica (gotas ou xarope) e a seringa dosadora que acompanha o produto, nunca colher de cozinha.
- Dose: 10–15 mg/kg/dose
- Intervalo: 4–6 horas
- Máximo: 75 mg/kg/dia (não exceder 3 g/dia)
- Ex: criança de 10 kg → 100–150 mg/dose
- Dose: 5–10 mg/kg/dose
- Intervalo: 6–8 horas
- Máximo: 40 mg/kg/dia
- Ex: criança de 10 kg → 50–100 mg/dose
- Evitar em desidratação ou catapora
- Gotas: 1 gota/kg/dose (25 mg/mL)
- Xarope: 0,5–1 ml/kg/dose
- Intervalo: 6 horas
- Ex: criança de 10 kg → 10 gotas/dose
Qual usar na gravidez e na amamentação
Na gravidez, o paracetamol é o analgésico de primeira linha e o único dos três considerado seguro em qualquer trimestre, desde que usado em doses padrão e por curtos períodos. A dipirona deve ser evitada no primeiro trimestre e próximo ao parto; o ibuprofeno é contraindicado, sobretudo a partir da 20ª semana (risco de oligoidrâmnio e fechamento precoce do ducto arterioso fetal).
Na amamentação, paracetamol e ibuprofeno são compatíveis — ambos passam em quantidade mínima para o leite. A dipirona é aceitável em dose única para dor aguda, mas o uso repetido não é recomendado por falta de dados robustos.
Interações medicamentosas importantes
- Dipirona + álcool: potencializa sonolência e queda de pressão.
- Dipirona + antidepressivos/clonidina: pode alterar efeito da pressão.
- Paracetamol + álcool: aumento do risco de hepatotoxicidade (evitar combinação).
- Paracetamol + varfarina: em uso prolongado, pode potencializar efeito anticoagulante.
- Ibuprofeno + anticoagulantes (varfarina, AAS): risco aumentado de sangramento digestivo.
- Ibuprofeno + IECA/losartana: risco de lesão renal aguda, especialmente em idosos.
- Ibuprofeno + lítio: aumento dos níveis de lítio (toxicidade).
- Ibuprofeno + diuréticos: redução do efeito diurético e risco renal.
- Os três + outros analgésicos: cuidado com dupla dosagem (produtos de gripe contêm paracetamol).
Mitos comuns sobre os três analgésicos
- Falso na dose terapêutica, mas a mistura amplifica sonolência e queda de pressão. O risco real do álcool é com paracetamol (fígado).
- Falso. É o analgésico que mais causa intoxicação grave por dose excessiva, sobretudo quando combinado com álcool ou produtos de gripe.
- Depende. Para dor inflamatória, sim. Para febre alta e dor intensa não inflamatória, a dipirona costuma ser mais potente.
- A alternância paracetamol + ibuprofeno em crianças é prática aceita em alguns protocolos, mas NÃO deve ser feita por conta própria. Dipirona não se alterna rotineiramente com os outros.
Decisão final: qual escolher?
Use este guia como ponto de partida, não como substituto de orientação médica. Em geral: dor leve e sem inflamação, comece com paracetamol; febre alta ou dor intensa sem contraindicação, dipirona; dor com inflamação e sem risco gástrico, ibuprofeno. Na gravidez, sempre paracetamol. Em crianças pequenas, paracetamol é a base; ibuprofeno entra a partir de 6 meses e dipirona só com orientação.
Se a dor ou febre não melhorar em 3 dias, se surgirem novos sintomas (sangramento, urina escura, icterícia, confusão) ou se houver doença pré-existente (fígado, rim, coração, úlcera), suspenda a automedicação e procure um médico. Analgésico é para alívio temporário, não para uso crônico sem supervisão.
Guia completo: Dipirona
Tudo sobre dipirona (Novalgina) reunido: dose por peso, intervalo entre as tomadas, uso na gravidez e comparações com outros analgésicos.
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Perguntas frequentes
+Qual é o analgésico mais seguro no Brasil?
O paracetamol é considerado o mais seguro dos três: não irrita o estômago, é seguro na gravidez e na amamentação e é a primeira opção para crianças a partir de 2 meses. O limite é a dose máxima (4 g/dia em adultos), pois em excesso causa lesão hepática grave.
+Posso tomar dipirona e paracetamol juntos?
Em geral não é necessário nem recomendado tomar os dois juntos. Se um analgésico não for suficiente para a dor, o ideal é buscar orientação médica. A combinação não é proibida, mas duplica a exposição a efeitos colaterais sem benefício comprovado na maioria dos casos.
+Dipirona ou paracetamol para febre?
Para febre alta a dipirona costuma ser mais eficaz e rápida. O paracetamol é uma boa primeira opção em febre leve a moderada e é a escolha preferida em gestantes e crianças menores de 3 meses. Em crianças maiores, a dipirona é amplamente usada no Brasil.
+Ibuprofeno ou dipirona para dor de dente?
Ibuprofeno, porque a dor de dente geralmente tem componente inflamatório e o ibuprofeno é anti-inflamatório. A dipirona alivia a dor, mas não reduz a inflamação. Se não puder usar ibuprofeno (úlcera, gravidez), a dipirona é a alternativa.
+Posso dar dipirona para bebê de 2 meses?
Não. A dipirona só é recomendada a partir dos 3 meses (ou peso ≥5 kg). Antes disso, o paracetamol é o único analgésico-antitérmico considerado seguro, na dose de 10–15 mg/kg.
+Qual analgésico não faz mal no estômago?
O paracetamol, pois atua no sistema nervoso central e não inibe as enzimas que protegem a mucosa gástrica. A dipirona tem baixo risco e o ibuprofeno é o que mais irrita o estômago, devendo sempre ser tomado com alimentos.
+Posso tomar ibuprofeno na gravidez?
Não, especialmente a partir do 3º trimestre. O ibuprofeno pode causar fechamento precoce do ducto arterioso fetal e reduzir o líquido amniótico. O paracetamol é o analgésico de escolha na gestação, sempre com orientação do obstetra.
+Dipirona dá sono mesmo?
Pode dar, sim. Embora não seja um sedativo, a dipirona pode causar sonolência por queda transitória da pressão e pelo relaxamento que vem com o alívio da dor. O efeito costuma durar 30–90 minutos e é mais comum com a formulação injetável e em idosos.
+Qual analgésico posso tomar com álcool?
Nenhum é ideal com álcool, mas o risco mais grave é a combinação paracetamol + álcool, que aumenta muito o risco de hepatotoxicidade. Ibuprofeno + álcool aumenta o risco de sangramento gástrico. Dipirona + álcool amplifica sonolência e queda de pressão. O mais seguro é não combinar.
+Quantos dias posso tomar analgésico sem orientação?
No máximo 3 a 5 dias para dor ou febre. Se os sintomas persistirem além disso, é sinal de que a causa precisa ser investigada. O uso prolongado de qualquer analgésico sem supervisão médica aumenta o risco de efeitos colaterais graves.
Você já usou ou pesquisou sobre esse tema?
Comentários reais
Tabela excelente. Uso como material de orientação em farmácia. A separação por situação clínica ajuda muito na farmacoatendimento.
Finalmente um comparativo que não é genérico. Salvei para consultar sempre que tiver dúvida qual dar para o filho.
Conteúdo bem embasado e com as doses pediátricas por peso corretas. Bom material de referência para pacientes.
- • Anvisa — Bulário Eletrônico (bulas profissionais).
- • Goodman & Gilman — As Bases Farmacológicas da Terapêutica, 13ª ed.
- • UpToDate — Drug Information Monographs.
- • Sociedade Brasileira de Farmácia Clínica — Diretrizes de uso racional.
- • Koenig J et al. Antipyretic drugs in children: safety and efficacy. Pediatrics.
- • Perel P et al. Comparison of analgesic efficacy of single-dose dipyrone, paracetamol and ibuprofen. Cochrane Database Syst Rev.
- • Marquez-Magaña I et al. Efficacy of dipyrone vs paracetamol in fever. PLoS One.
- • Ministério da Saúde — Protocolos de manejo de febre na atenção primária.
- • Sociedade Brasileira de Pediatria — Uso racional de antitérmicos e analgésicos em pediatria.